O centralismo democrático exigia a imposição das decisões da maioria, a impossibilidade de existirem facções e tendências internas, um severo centralismo organizativo e uma fortíssima e determinante disciplina revolucionária a todos os níveis. Uma máquina gerida pela superioridade moral dos comunistas. Álvaro Cunhal exigia um PCP leninista onde os organismos inferiores cumprissem as decisões dos organismos superiores e onde a minoria se submetesse à maioria. Um partido onde todos os membros tivesse direito a discutir democraticamente toda a orientação do partido. Um partido onda a crítica e a autocrítica constituíssem uma base fundamental do seu trabalho. O PCP de Álvaro Cunhal assumiu-se como um partido dirigido por elites de revolucionários profissionais, organizados para dirigir as massas e instituir um Estado socialista através da revolução.
A biografia de uma das figuras portuguesas mais marcantes do século XX
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Um blogue feito pelos leitores
Estive apenas uma vez com Álvaro Cunhal. Com toda a certeza, o homem que eu conheci num seminário sobre arte, não guardou nenhuma memória minha mas eu guardo até hoje uma fotografia que tirei com ele e que, ainda agora, ocupa um lugar importante na minha casa. Contudo, as duas horas que estivemos juntos influenciaram para sempre a convivência religiosa da minha família. A minha família materna sempre foi de esquerda. A paterna, sempre foi de direita. Em comum, têm o facto de ambas serem bastante católicas e de respeitarem as ‘regras’ e as ‘normas’ da Igreja Católica. Vivo em Braga, sigo as tradições e cumpro os rituais. No Domingo de Páscoa, junto a família e os amigos, faço um tapete de flores na rua e abro as portas da minha casa para que entre o Compasso. Em família, cumprimentamos o sacerdote e a equipa do Compasso, beijamos a Cruz e as crianças podem mesmo badalar a campainha, em forma de sino, que acompanha ‘Jesus ressuscitado’. Tudo bem? Não, tudo mal. Pelo menos desde que decidi colocar na sala a fotografia de Álvaro Cunhal. A primeira a queixar-se foi uma tia: “Que sacrilégio, rapariga, então tens aqui o Cunhal na sala onde vais receber o Compasso”? Sem esperar resposta, pegou na moldura e escondeu-a na cozinha. No ano seguinte, foi a vez da minha mãe avisar que era melhor tirar a fotografia do lugar e voltar a pô-la no sítio depois “do senhor padre sair”. Foi o limite: A fotografia ficou onde estava e o Compasso entrou e saiu da minha casa sem que nada de grave tivesse acontecido. Mas, mesmo assim, com o passar dos anos, a discussão continua. A mesma tia que, quando Álvaro Cunhal morreu, mandou celebrar uma missa, encomendando a Deus a sua alma, e que ensinou uma geração de sobrinhos a cantar, afinadinhos, “De pé, ó vítimas da fome…”, não quer que Cunhal esteja na sala quando, no Domingo de Páscoa, o Compasso entra cá em casa. Emília Monteiro, jornalista
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
O gira-discos de Álvaro Cunhal
O gosto musical de Álvaro Cunhal era extremamente variado e ecléctico. Sem ser um melómano, cultivava a audição de muitos dos grandes compositores clássicos. Mas também os "contemporâneos" Beatles, Rolling Stones e Pink Floyd eram bastante apreciados pelo líder comunista, a que se juntavam muitos nomes da música francesa, como Moustaki. A corroborar o depoimento prestado neste vídeo por Humberto da Mota Veiga, parente de Cunhal, recordo o testemunho directo que em 1978 me prestou Mário Barradas, encenador de referência do Teatro português e fundador do Grupo de Teatro de Évora, já falecido. Ele e Cunhal conheceram-se em Paris, na década de 60. Nas noites de tertúlia da rua Palmira, recordo as discussões sobre o mundo e os homens, muitas vezes embaladas pelos discos de vinil que o Mário, garantia, partilhava "com o camarada Álvaro". Este vídeo homenageia Mário Barradas. O depoimento que aqui presto não está incluído no livro de Adelino Cunha, é da minha inteira responsabilidade e não vincula o autor. António Nascimento
Negociações secretas (III)
O regresso a casa após o 25 de Abril
O PCUS aprovou a proposta de Álvaro Cunhal para negociar a sua liberdade condicional com a ditadura salazarista com o compromisso de abandonar de Portugal e sugeriu a Pires Jorge que o PCP pedisse ajuda dos comunistas espanhóis e checos para negociar o acolhimento no México. “Dever-se-ia aconselhar o camarada Gomes a solicitar a ajuda do México através do comité central do Partido Comunista espanhol, o qual tem contactos com os círculos governamentais do México e já os utilizou para libertar camaradas comunistas das cadeias espanholas”, escreve o vice-director do departamento do comité central do PCUS (Vinogradov I).
O exílio de Álvaro Cunhal em Moscovo (II)
Teatro Bolshoi, Moscovo (2009)
Isaura Moreira recorda a vida normal em Moscovo com Álvaro Cunhal e a filha de ambos: “Passeávamos, íamos às compras, aproveitávamos para ir ao teatro, ao ballet e ao cinema”. A actividade cultural era intensa. “Quando eu sabia que o Álvaro queria assistir a um ou outro concreto, comprava-lhe logo os bilhetes”, recorda Margarida Tengarrinha. As óperas e os espectáculos de ballet no lendário Teatro Bolshoi tinham acesso mais difícil devido à intensa procura. Álvaro Cunhal usava esporadicamente os seus privilégios na nomenklatura soviética e pedia para serem reservados bilhetes para si e para o restante grupo de comunistas portugueses exilados na União Soviética na primeira metade da década de 60.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Negociações secretas (II)
Após viajar clandestinamente para Moscovo, Pires Jorge informou a sua ligação com o PCUS (“Vinogradov I”) de que existia “esperança” de que o Governo português libertasse Álvaro Cunhal “sob condição de ele deixar o país”. O documento (Março de 1957) refere que, para tal, “os camaradas portugueses precisam receber o consentimento do Governo de um país, de preferência capitalista, de conceder um visto ao camarada Cunhal”. Pires Jorge pediu autorização a Moscovo para a liberdade de Cunhal ser negociada nestes termos e solicitou ajuda directa para o estabelecimento dos necessários contactos no movimento comunista internacional.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Encontros clandestinos na serra de Sintra
Santiago Carrillo fotografado na sua casa em Madrid (2008)
Santiago Carrillo e Álvaro Cunhal encontraram-se secretamente numa casa clandestina na serra de Sintra, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. “Meio a brincar, meio a sério, discutimos sobre qual seria o primeiro país que restabeleceria a democracia. Cunhal apostava por Portugal, eu por Espanha. Afinal foi Cunhal quem acertou. De qualquer maneira, estávamos decididos a colaborar e entreajudarmo-nos mutuamente”, recorda o líder histórico dos comunistas espanhóis.
A primeira prisão de Álvaro Cunhal
A prisão do Aljube, Lisboa
“Espancaram-me durante horas inteiras, até perder os sentidos e ser assim levado para um segredo isolado noutra prisão, estar ali prostrado algumas semanas, ver a cara ao espelho ao fim de quinze dias e não a reconhecer, o corpo todo negro. Mas eu fiquei vivo, outros morreram”. Os agentes da PIDE colocavam-no no meio do círculo e espancavam-no com murros, pontapés, golpes de cavalo-marinho e tábuas. “Depois de me terem assim espancado longo tempo, deixaram-me cair, imobilizaram-me no solo, descalçaram-me sapatos e meias e deram-me violentas pancadas nas plantas dos pés”. Foi forçado a caminhar com os pés ensanguentados e inchados. Os métodos de tortura repetiram-se ao longo de vários dias até Álvaro Cunhal ficar inconsciente. Tinha 24 anos.
Álvaro Cunhal: o mistério biográfico
Quem foi este homem? "Tão magro, de magreza impressionante, chupado, a face fina e severa, as mãos nervosas, dessas mãos que falam, mal penteado o cabelo, um homem jovem mas fisicamente sofrido, homem de noites mal dormidas, de pouso incerto, de responsabilidades imensas e de trabalho infatigável, eu o vejo, sentado ao outro lado da mesa, diante de mim, falando com a sua voz um pouco rouca, os olhos ardentes no fundo de um longo e sempre vencido cansaço, e o vejo agora, como há cinco anos passados, sua impressionante e inesquecível imagem: Álvaro Cunhal, conhecido por Duarte, o revolucionário português". (Jorge Amado)
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
A casa de Álvaro Cunhal em Seia
A casa da família Cunhal em Seia (já desaparecida)
O baptismo de Álvaro Cunhal realizou-se no dia 5 de Maio de 1919, na igreja matriz de Seia. A cerimónia de sacramento teve como padrinho o irmão António José com 10 anos e o assento refere que “para madrinha recorreu-se à invocação de Nossa Senhora da Assunção”.
Álvaro Cunhal: passeios no Tejo
Álvaro Cunhal com Soeiro Pereira Gomes e outros intelectuais durante um passeio de fragata no rio Tejo
domingo, 14 de novembro de 2010
A revolução
Carlos Costa e Joaqim Gomes fotografos no local por onde fugiram do Forte de Peniche com Álvaro Cunhal há cinquenta anos
O futuro em Moscovo
Pires Jorge chegou a Moscovo no dia 2 de Março de 1957. O dirigente do PCP foi recebido pelo vice-director do departamento do comité central do PCUS para as relações com os partidos comunistas estrangeiros. A documentação com o relato da reunião secreta encontra-se no Arquivo Estatal da História Moderna da Rússia, em Moscovo, assinada com o pseudónimo "Vinogradov I" e data de 7 de Março.
“Numa conversa com um funcionário do departamento [do comité central], o camarada Gomes [Pires Jorge] (...) pede aos partidos comunistas fraternos que contribuam para a libertação do primeiro secretário do comité central do PCP, Álvaro Cunhal, que desde 1949 está preso em Lisboa Actualmente, há esperança que o Governo português consinta em libertá-lo sob condição de ele deixar o país. Para tal, os camaradas portugueses precisam receber o consentimento do Governo de um país, de preferência capitalista, de conceder um visto ao camarada Cunhal"
A prisão perpétua
Avelino Cunhal enviou um requerimento para o ministro da Justiça no dia 12 de Novembro de 1956. “Em quase oito anos de prisão, não sofreu o signatário [Álvaro Cunhal] o menor castigo, nem há na sua conduta nada que possa justificar o prolongamento das medidas de segurança”. Solicita depois ao governo a possibilidade de exílio forçado para o estrangeiro para evitar a provável prisão perpétua. "Se tal solução fosse adoptada, necessário seria naturalmente que o signatário fosse dela dado conhecimento com a antecedência necessária para não só que pudesse resolver óbvias questões de carácter pessoal (familiares, financeiras, documentos), como pudesse diligenciar a fim de obter que algum país lhe desse direito de asilo ou o acolhesse como emigrante".
Negociações secretas
Álvaro Cunhal negociou com o Estado Novo o regresso à liberdade após ter cumprido 8 anos de prisão. A proposta de compromisso implicava o abandono de Portugal e o exílio no México. Os detalhes deste processo foram directamente comunicados ao responsáveis soviéticos para solicitar aprovação e ajuda do movimento comunista internacional. Moscovo aprovou a negociação da libertação condicionada ao exílio. O assunto começou a ser tratado após a transferência da Penitenciária de Lisboa para a Forte de Peniche (fotografia de 2009). Foi Avelino Cunhal quem interpelou o governo para solicitar a avaliação da “possibilidade de exílio forçado" do seu filho no estrangeiro.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
A Fuga
Carlos Costa e Joaquim Gomes fotografados no Forte de Peniche 50 anos após a épica fuga colectiva com Álvaro Cunhal
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