A biografia de uma das figuras portuguesas mais marcantes do século XX
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
A vida no país dos sovietes
Isaura Moreira durante o exílio de Moscovo a comprar melancias à porta de casa
Álvaro Cunhal exilou-se na União Soviética após a monumental fuga do Forte de Peniche, em Janeiro de 1960. A companheira Isaura Moreira foi para Moscovo com a filha logo após o seu nascimento, numa clínica de Lisboa. Ana Cunhal nasceu na clandestinidade e acompanhou depois os pais no exílio. Primeiro, na União Soviética. Depois, em Bucareste. A vida quotidiana da família de Álvaro Cunhal em Moscovo ficou marcada pela normalidade: o líder comunista conseguiu, finalmente, usufruir de um núcleo familiar após longas décadas de vida ilegal, marcadas pelas prisões e pelas torturas, pela solidão e pelo exaustivo trabalho político.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Lançamento (IV)
Carlos Carvalhas (foto em cima), Pedro Passos Coelho, Miguel Relvas, António Vitorino e Adelino Cunha
Lançamento (III) O depoimento de Eugénia Cunhal
Pedimos desculpa aos leitores pela má qualidade do som.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Lançamento (II)
Pedro Passos Coelho, líder do PSD, e Miguel Relvas, secretário-geral, estiveram também presentes no lançamento
Lançamento com António Vitorino e Carlos Carvalhas
António Vitorino apresentou a obra de Adelino Cunha. Carlos Carvalhas, sucessor de Álvaro Cunhal na liderança do PCP, esteve presente no Centro de Estudos Judiciários, antiga prisão do Limoeiro (dia 22 de Novembro).
sábado, 20 de novembro de 2010
A morte de um camarada de Álvaro Cunhal
Joaquim Gomes morreu hoje. Tinha 93 anos de idade. Estivemos juntos em duas ocasiões. Primeiro: uma longa entrevista na sede do PCP, em Lisboa, na Soeiro Pereira Gomes (na fotografia). Falámos de tudo. Desde a sua infância até à adesão ao PCP e de tudo o que partilhou com Álvaro Cunhal. Combinámos ir ao Forte de Peniche reconstituir a célebre fuga.
Fomos num dia ameno de Março, também com Carlos Costa (na fotografia). Chegámos cedo a Peniche. Passámos horas no forte a reconstituir cada um dos passos. Sessenta anos depois: cada um dos passos. Esqueceram-se de mim várias vezes quando andaram os dois por ali a recuperar os fragmentos de um fim de tarde de domingo de Janeiro de 1960 que mudou tanta coisa na História de Portugal.
Almoçámos num restaurante perto do Forte de Peniche: arroz de tamboril. Bebemos e falámos. Eles falaram e eu ouvi. Ouvi o desfiar de décadas de histórias, de lutas, de sofrimentos, de alegrias e de derrotas. Pedi depois que se deixassem fotografar comigo: dentro do forte, junto às celas de onde fugiram há 50 anos. Na verdade, não foram só eles que fugiram com Álvaro Cunhal. Na verdade, nesse fim de tarde, fugiram todos os que acreditam. Joaquim Gomes acreditou até ontem. Acreditou até morrer. É também isso que o torna num homem especial. Adelino Cunha
A fuga dos fortes
No forte de Peniche 50 anos após a fuga. Foto Adelino Cunha
Joaquim Gomes fotografado no Forte de Peniche a fazer uma reconstituição da fuga de Janeiro de 1960 com Álvaro Cunhal e outros dirigentes do PCP. Um testemunho histórico para o livro "Álvaro Cunhal - Retrato Pessoal e Íntimo". Joaquim Gomes morreu hoje com 93 anos.
Morreu Joaquim Gomes
"O secretariado do comité central do Partido Comunista Português informa, com profunda mágoa e tristeza, do falecimento hoje, dia 20 de Novembro, aos 93 anos de idade, de Joaquim Gomes, um dos mais destacados dirigentes comunistas da história do PCP, que dedicou toda a sua vida à luta da classe operária, dos trabalhadores e do povo português. Uma vida dedicada à luta contra o fascismo, pela liberdade, contra a exploração capitalista, pela democracia, a paz, o socialismo e o comunismo. Nascido a 4 de Março de 1917 na Marinha Grande, Joaquim Gomes tornou-se operário aprendiz na indústria vidreira, com apenas 6 anos de idade. É também muito jovem, durante a década de trinta, que inicia a sua actividade de militante comunista, tendo ingressado aos 14 anos na Federação da Juventude Comunista Portuguesa e, em Março de 1934, no Partido Comunista Português, passando imediatamente a fazer parte do Comité Local da Marinha Grande do PCP. Foi aí que encabeçou as primeiras lutas dos aprendizes por reivindicações salariais e contra o trabalho violento e as arbitrariedades do patronato. É no desenvolvimento destas lutas, que vieram a ter expressão revolucionária na histórica insurreição de 18 de Janeiro de 1934 contra a fascização dos sindicatos, que Joaquim Gomes é preso pela primeira vez em fins de Novembro de 1933, tinha então 16 anos. Após a sua libertação em Março de 1934, desempenhou importante papel na reactivação da organização do Partido na Marinha Grande e na solidariedade aos presos do 18 de Janeiro. A partir dos finais dos anos 30 passou a desempenhar tarefas ligadas à distribuição da imprensa partidária e às casas de apoio à direcção do Partido. Em 1952 passa à clandestinidade e entra para o Comité Local de Lisboa. Em 1955 torna-se membro suplente do comité central e dois anos depois passa a membro efectivo. Em 1963 integra a comissão executiva do comité central e posteriormente a comissão política. Foi preso por três vezes pela PIDE e por duas vezes fugiu da cadeia. Uma das suas fugas foi a célebre fuga de Peniche, com Álvaro Cunhal, Jaime Serra, Carlos Costa e outros destacados militantes do Partido. Depois da revolução de Abril e até ao XV congresso em 1996 foi membro do comité central, tendo mantido as suas responsabilidades como membro do secretariado e da comissão política até ao XIV congresso em 1992, altura em que foi eleito membro da comissão central de controlo. Exerceu responsabilidades no âmbito da comissão administrativa e financeira e da comissão de património central até ao fim da sua vida. Foi deputado eleito pelo distrito de Leiria entre 1976 e 1987. Modesto e discreto, Joaquim Gomes deixa-nos recordações de uma vida de dedicação e de exemplo da resistência ao fascismo, de luta pela liberdade, a democracia e o socialismo. Joaquim Gomes lega-nos um exemplo de coragem e abnegação revolucionária, reveladoras da vontade e firmeza inquebrantável na luta ao serviço da classe operária, do povo e da pátria. O secretariado do comité central endereça à camarada Maria da Piedade Gomes e restante família, as suas sentidas condolências".
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Um partido leninista
O centralismo democrático exigia a imposição das decisões da maioria, a impossibilidade de existirem facções e tendências internas, um severo centralismo organizativo e uma fortíssima e determinante disciplina revolucionária a todos os níveis. Uma máquina gerida pela superioridade moral dos comunistas. Álvaro Cunhal exigia um PCP leninista onde os organismos inferiores cumprissem as decisões dos organismos superiores e onde a minoria se submetesse à maioria. Um partido onde todos os membros tivesse direito a discutir democraticamente toda a orientação do partido. Um partido onda a crítica e a autocrítica constituíssem uma base fundamental do seu trabalho. O PCP de Álvaro Cunhal assumiu-se como um partido dirigido por elites de revolucionários profissionais, organizados para dirigir as massas e instituir um Estado socialista através da revolução.
Um blogue feito pelos leitores
Estive apenas uma vez com Álvaro Cunhal. Com toda a certeza, o homem que eu conheci num seminário sobre arte, não guardou nenhuma memória minha mas eu guardo até hoje uma fotografia que tirei com ele e que, ainda agora, ocupa um lugar importante na minha casa. Contudo, as duas horas que estivemos juntos influenciaram para sempre a convivência religiosa da minha família. A minha família materna sempre foi de esquerda. A paterna, sempre foi de direita. Em comum, têm o facto de ambas serem bastante católicas e de respeitarem as ‘regras’ e as ‘normas’ da Igreja Católica. Vivo em Braga, sigo as tradições e cumpro os rituais. No Domingo de Páscoa, junto a família e os amigos, faço um tapete de flores na rua e abro as portas da minha casa para que entre o Compasso. Em família, cumprimentamos o sacerdote e a equipa do Compasso, beijamos a Cruz e as crianças podem mesmo badalar a campainha, em forma de sino, que acompanha ‘Jesus ressuscitado’. Tudo bem? Não, tudo mal. Pelo menos desde que decidi colocar na sala a fotografia de Álvaro Cunhal. A primeira a queixar-se foi uma tia: “Que sacrilégio, rapariga, então tens aqui o Cunhal na sala onde vais receber o Compasso”? Sem esperar resposta, pegou na moldura e escondeu-a na cozinha. No ano seguinte, foi a vez da minha mãe avisar que era melhor tirar a fotografia do lugar e voltar a pô-la no sítio depois “do senhor padre sair”. Foi o limite: A fotografia ficou onde estava e o Compasso entrou e saiu da minha casa sem que nada de grave tivesse acontecido. Mas, mesmo assim, com o passar dos anos, a discussão continua. A mesma tia que, quando Álvaro Cunhal morreu, mandou celebrar uma missa, encomendando a Deus a sua alma, e que ensinou uma geração de sobrinhos a cantar, afinadinhos, “De pé, ó vítimas da fome…”, não quer que Cunhal esteja na sala quando, no Domingo de Páscoa, o Compasso entra cá em casa. Emília Monteiro, jornalista
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
O gira-discos de Álvaro Cunhal
O gosto musical de Álvaro Cunhal era extremamente variado e ecléctico. Sem ser um melómano, cultivava a audição de muitos dos grandes compositores clássicos. Mas também os "contemporâneos" Beatles, Rolling Stones e Pink Floyd eram bastante apreciados pelo líder comunista, a que se juntavam muitos nomes da música francesa, como Moustaki. A corroborar o depoimento prestado neste vídeo por Humberto da Mota Veiga, parente de Cunhal, recordo o testemunho directo que em 1978 me prestou Mário Barradas, encenador de referência do Teatro português e fundador do Grupo de Teatro de Évora, já falecido. Ele e Cunhal conheceram-se em Paris, na década de 60. Nas noites de tertúlia da rua Palmira, recordo as discussões sobre o mundo e os homens, muitas vezes embaladas pelos discos de vinil que o Mário, garantia, partilhava "com o camarada Álvaro". Este vídeo homenageia Mário Barradas. O depoimento que aqui presto não está incluído no livro de Adelino Cunha, é da minha inteira responsabilidade e não vincula o autor. António Nascimento
Negociações secretas (III)
O regresso a casa após o 25 de Abril
O PCUS aprovou a proposta de Álvaro Cunhal para negociar a sua liberdade condicional com a ditadura salazarista com o compromisso de abandonar de Portugal e sugeriu a Pires Jorge que o PCP pedisse ajuda dos comunistas espanhóis e checos para negociar o acolhimento no México. “Dever-se-ia aconselhar o camarada Gomes a solicitar a ajuda do México através do comité central do Partido Comunista espanhol, o qual tem contactos com os círculos governamentais do México e já os utilizou para libertar camaradas comunistas das cadeias espanholas”, escreve o vice-director do departamento do comité central do PCUS (Vinogradov I).
O exílio de Álvaro Cunhal em Moscovo (II)
Teatro Bolshoi, Moscovo (2009)
Isaura Moreira recorda a vida normal em Moscovo com Álvaro Cunhal e a filha de ambos: “Passeávamos, íamos às compras, aproveitávamos para ir ao teatro, ao ballet e ao cinema”. A actividade cultural era intensa. “Quando eu sabia que o Álvaro queria assistir a um ou outro concreto, comprava-lhe logo os bilhetes”, recorda Margarida Tengarrinha. As óperas e os espectáculos de ballet no lendário Teatro Bolshoi tinham acesso mais difícil devido à intensa procura. Álvaro Cunhal usava esporadicamente os seus privilégios na nomenklatura soviética e pedia para serem reservados bilhetes para si e para o restante grupo de comunistas portugueses exilados na União Soviética na primeira metade da década de 60.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Negociações secretas (II)
Após viajar clandestinamente para Moscovo, Pires Jorge informou a sua ligação com o PCUS (“Vinogradov I”) de que existia “esperança” de que o Governo português libertasse Álvaro Cunhal “sob condição de ele deixar o país”. O documento (Março de 1957) refere que, para tal, “os camaradas portugueses precisam receber o consentimento do Governo de um país, de preferência capitalista, de conceder um visto ao camarada Cunhal”. Pires Jorge pediu autorização a Moscovo para a liberdade de Cunhal ser negociada nestes termos e solicitou ajuda directa para o estabelecimento dos necessários contactos no movimento comunista internacional.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Encontros clandestinos na serra de Sintra
Santiago Carrillo fotografado na sua casa em Madrid (2008)
Santiago Carrillo e Álvaro Cunhal encontraram-se secretamente numa casa clandestina na serra de Sintra, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. “Meio a brincar, meio a sério, discutimos sobre qual seria o primeiro país que restabeleceria a democracia. Cunhal apostava por Portugal, eu por Espanha. Afinal foi Cunhal quem acertou. De qualquer maneira, estávamos decididos a colaborar e entreajudarmo-nos mutuamente”, recorda o líder histórico dos comunistas espanhóis.
A primeira prisão de Álvaro Cunhal
A prisão do Aljube, Lisboa
“Espancaram-me durante horas inteiras, até perder os sentidos e ser assim levado para um segredo isolado noutra prisão, estar ali prostrado algumas semanas, ver a cara ao espelho ao fim de quinze dias e não a reconhecer, o corpo todo negro. Mas eu fiquei vivo, outros morreram”. Os agentes da PIDE colocavam-no no meio do círculo e espancavam-no com murros, pontapés, golpes de cavalo-marinho e tábuas. “Depois de me terem assim espancado longo tempo, deixaram-me cair, imobilizaram-me no solo, descalçaram-me sapatos e meias e deram-me violentas pancadas nas plantas dos pés”. Foi forçado a caminhar com os pés ensanguentados e inchados. Os métodos de tortura repetiram-se ao longo de vários dias até Álvaro Cunhal ficar inconsciente. Tinha 24 anos.
Álvaro Cunhal: o mistério biográfico
Quem foi este homem? "Tão magro, de magreza impressionante, chupado, a face fina e severa, as mãos nervosas, dessas mãos que falam, mal penteado o cabelo, um homem jovem mas fisicamente sofrido, homem de noites mal dormidas, de pouso incerto, de responsabilidades imensas e de trabalho infatigável, eu o vejo, sentado ao outro lado da mesa, diante de mim, falando com a sua voz um pouco rouca, os olhos ardentes no fundo de um longo e sempre vencido cansaço, e o vejo agora, como há cinco anos passados, sua impressionante e inesquecível imagem: Álvaro Cunhal, conhecido por Duarte, o revolucionário português". (Jorge Amado)
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