terça-feira, 30 de novembro de 2010

O poder do povo


Álvaro Cunhal exaltou a determinação dos comunistas em fazer vingar as reivindicações dos operários em aliança com as massas populares e com os militares através da execução de “profundas reformas democráticas”. Estabeleceu cinco objectivos imediatos. Consolidar e tornar irreversíveis os resultados garantidos pelo MFA. Alcançar todas as liberdades democráticas, incluindo a da acção legal dos partidos políticos e assegurar a sua livre actividade. Pôr fim imediato à guerra colonial. Alcançar a satisfação das reivindicações mais prementes das massas trabalhadoras. Assegurar a realização de eleições verdadeiramente livres para a Assembleia Constituinte.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A memória de Lenine


O líder dos revolucionários portugueses repetiu a mise-en-scène de Lenine quando chegou a Petrogado do seu exílio na Suíça. Também Álvaro Cunhal  subiu para um carro de combate que o esperava na Portela para saudar as massas. Um tributo cénico digno de Eisenstein.


O entusiasmo e a exuberância da recepção superaram as suas expectativas. Os gritos de vitória correram mundo pelas televisões e traduziram em imagens um certo ascendente dos comunistas que seria depois capitalizado na determinação do processo revolucionário.

A chegada a Lisboa

Álvaro Cunhal aterrou no aeroporto da Portela no dia 30 de Abril de 1974 acompanhado por Domingos Abrantes e a companheira Conceição Martins (na foto). Os dois funcionários tinham chegado poucos meses antes a Paris quando ocorreu o 25 de Abril. Regressaram os três a Portugal no mesmo voo da TAP. Durante a curta viagem, o líder do PCP sujou as calças com a refeição servida a bordo do avião. A companheira de Domingos Abrantes tentou ajudá-lo para compor a imagem para quando chegasse a Lisboa, mas Cunhal insistiu em resolver o problema sozinho.

domingo, 28 de novembro de 2010

A revolução portuguesa


O processo revolucionário português permitiu nacionalizar a banca, companhias de seguros e vários sectores básicos da economia nacional. Energia eléctrica, petróleos, siderurgia, construção naval, cimento, vidro, tabaco, cervejas, transportes ferroviários, marítimos, aéreos e terrestres. Centenas de empresas foram tomadas pelo poder operário e a reforma agrária permitiu criar mais de 500 unidades colectivas de produção e cooperativas. O Estado Novo foi desmantelado, a Constituição assumiu a protecção das conquistas revolucionárias e definiu como desígnio nacional a construção do socialismo. Todas estas condições foram insuficientes para a concretização do sonho. Porquê?


Porque as conquistas revolucionárias não decorreram de um poder político revolucionário. Porque o PCP não conseguiu controlar os sectores militares essenciais e foi perdendo terreno para a extrema-esquerda. Porque os restantes partidos parlamentares eram favoráveis à fundação de um regime democrático do tipo ocidental. Porque a maioria dos votos foram expressando sucessivamente o apoio às propostas de governo do PS e do PSD. Porque Mário Soares se opôs. O jovem “Fontes” que aderiu ao PCP na juventude e lutou pelo comunismo transmutou -se no líder do maior partido concorrente do PCP com uma outra ideologia e uma outra prática.



Só Álvaro Cunhal manteve as suas convicções de sempre. O processo revolucionário esgotou-se no I Governo Constitucional e abriu portas para o processo contra-revolucionário. O PCP imputou o fracasso ao PS e identificou o “pecado original” nas eleições legislativas de 1976.

O parque moscovita onde Álvaro Cunhal passeava

Os arredores da casa de Álvaro Cunhal em Moscovo (2009)

Álvaro Cunhal viveu com a companheira Isaura Moreira e a filha de ambos, Ana Cunhal, em Moscovo, na primeira metade da década de 60. Este é um dos sítios onde a família costumava passear em conjunto.

Álvaro Cunhal visita Moscovo pela primeira vez


Álvaro Cunhal visitou a União Soviética pela primeira em 1935. “Ele chegou encantado de Moscovo. Não tinha razão para desconfiar da nada do que se passava. Nessa primeira vez, entre os altos dirigentes, só conheceu Suslov e só conseguiu ver a União Soviética que mostravam para propaganda, as visitas guiadas ao mausoléu onde estava o corpo de Lenine e alguns eventos sociais”, recorda Cândida Ventura, amiga desde a juventude.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A moral comunista


A prática revolucionária é a melhor escola de comportamento e de carácter pelas experiências que permite em termos de unidade, camaradagem, solidariedade e abnegação. É também uma escola por permitir aprender não só com os sucessos, mas também com os insucessos, mantendo inabalável confiança no futuro, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, mesmo em horas amargas de derrota” (Álvaro Cunhal)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

As fotografias de Álvaro Cunhal


Durante o exílio na União Soviética, Álvaro Cunhal tirava frequentemente fotografias à companheira, Isaura Moreira, e à filha, Ana Cunhal, que depois ele próprio revelava num pequeno laboratório instalado no seu apartamento. Nesta sequência, está uma dessas fotografias tiradas pelo antigo líder do PCP à filha e à companheira no parque perto da sua casa, durante um Inverno moscovita na primeira metade da década de 60, e o mesmo parque fotografado em 2009.

O outro lado de Álvaro Cunhal na SIC Notícias

O outro lado de Álvaro Cunhal na TVI 24

A vida no país dos sovietes

Isaura Moreira durante o exílio de Moscovo a comprar melancias à porta de casa

Álvaro Cunhal exilou-se na União Soviética após a monumental fuga do Forte de Peniche, em Janeiro de 1960. A companheira Isaura Moreira foi para Moscovo com a filha logo após o seu nascimento, numa clínica de Lisboa. Ana Cunhal nasceu na clandestinidade e acompanhou depois os pais no exílio. Primeiro, na União Soviética. Depois, em Bucareste. A vida quotidiana da família de Álvaro Cunhal em Moscovo ficou marcada pela normalidade: o líder comunista conseguiu, finalmente, usufruir de um núcleo familiar após longas décadas de vida ilegal, marcadas pelas prisões e pelas torturas, pela solidão e pelo exaustivo trabalho político.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Lançamento (IV)


Carlos Carvalhas (foto em cima), Pedro Passos Coelho, Miguel Relvas, António Vitorino e Adelino Cunha


Lançamento (III) O depoimento de Eugénia Cunhal



Pedimos desculpa aos leitores pela má qualidade do som.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Lançamento (II)

Pedro Passos Coelho, líder do PSD, e Miguel Relvas, secretário-geral, estiveram também presentes no lançamento

Lançamento com António Vitorino e Carlos Carvalhas


António Vitorino apresentou a obra de Adelino Cunha.  Carlos Carvalhas, sucessor de Álvaro Cunhal na liderança do PCP, esteve presente no Centro de Estudos Judiciários, antiga prisão do Limoeiro (dia 22 de Novembro).


 

sábado, 20 de novembro de 2010

A morte de um camarada de Álvaro Cunhal


Joaquim Gomes morreu hoje. Tinha 93 anos de idade. Estivemos juntos em duas ocasiões. Primeiro: uma longa entrevista na sede do PCP, em Lisboa, na Soeiro Pereira Gomes (na fotografia). Falámos de tudo. Desde a sua infância até à adesão ao PCP e de tudo o que partilhou com Álvaro Cunhal. Combinámos ir ao Forte de Peniche reconstituir a célebre fuga.



Fomos num dia ameno de Março, também com Carlos Costa (na fotografia). Chegámos cedo a Peniche. Passámos horas no forte a reconstituir cada um dos passos. Sessenta anos depois: cada um dos passos. Esqueceram-se de mim várias vezes quando andaram os dois por ali a recuperar os fragmentos de um fim de tarde de domingo de Janeiro de 1960 que mudou tanta coisa na História de Portugal.



Almoçámos num restaurante perto do Forte de Peniche: arroz de tamboril. Bebemos e falámos. Eles falaram e eu ouvi. Ouvi o desfiar de décadas de histórias, de lutas, de sofrimentos, de alegrias e de derrotas. Pedi depois que se deixassem fotografar comigo: dentro do forte, junto às celas de onde fugiram há 50 anos. Na verdade, não foram só eles que fugiram com Álvaro Cunhal. Na verdade, nesse fim de tarde, fugiram todos os que acreditam. Joaquim Gomes acreditou até ontem. Acreditou até morrer. É também isso que o torna num homem especial. Adelino Cunha

Joaquim Gomes (1917/2010)

Carlos Costa e Joaquim Gomes no forte de Peniche

A fuga dos fortes

No forte  de Peniche 50 anos após a fuga. Foto Adelino Cunha

Joaquim Gomes fotografado no Forte de Peniche a fazer uma reconstituição da fuga de Janeiro de 1960 com Álvaro Cunhal e outros dirigentes do PCP. Um testemunho histórico para o livro "Álvaro Cunhal - Retrato Pessoal e Íntimo". Joaquim Gomes morreu hoje com 93 anos.

Morreu Joaquim Gomes


"O secretariado do comité central do Partido Comunista Português informa, com profunda mágoa e tristeza, do falecimento hoje, dia 20 de Novembro, aos 93 anos de idade, de Joaquim Gomes, um dos mais destacados dirigentes comunistas da história do PCP, que dedicou toda a sua vida à luta da classe operária, dos trabalhadores e do povo português. Uma vida dedicada à luta contra o fascismo, pela liberdade, contra a exploração capitalista, pela democracia, a paz, o socialismo e o comunismo. Nascido a 4 de Março de 1917 na Marinha Grande, Joaquim Gomes tornou-se operário aprendiz na indústria vidreira, com apenas 6 anos de idade. É também muito jovem, durante a década de trinta, que inicia a sua actividade de militante comunista, tendo ingressado aos 14 anos na Federação da Juventude Comunista Portuguesa e, em Março de 1934, no Partido Comunista Português, passando imediatamente a fazer parte do Comité Local da Marinha Grande do PCP. Foi aí que encabeçou as primeiras lutas dos aprendizes por reivindicações salariais e contra o trabalho violento e as arbitrariedades do patronato. É no desenvolvimento destas lutas, que vieram a ter expressão revolucionária na histórica insurreição de 18 de Janeiro de 1934 contra a fascização dos sindicatos, que Joaquim Gomes é preso pela primeira vez em fins de Novembro de 1933, tinha então 16 anos. Após a sua libertação em Março de 1934, desempenhou importante papel na reactivação da organização do Partido na Marinha Grande e na solidariedade aos presos do 18 de Janeiro. A partir dos finais dos anos 30 passou a desempenhar tarefas ligadas à distribuição da imprensa partidária e às casas de apoio à direcção do Partido. Em 1952 passa à clandestinidade e entra para o Comité Local de Lisboa. Em 1955 torna-se membro suplente do comité central e dois anos depois passa a membro efectivo. Em 1963 integra a comissão executiva do comité central e posteriormente a comissão política. Foi preso por três vezes pela PIDE e por duas vezes fugiu da cadeia. Uma das suas fugas foi a célebre fuga de Peniche, com Álvaro Cunhal, Jaime Serra, Carlos Costa e outros destacados militantes do Partido. Depois da revolução de Abril e até ao XV congresso em 1996 foi membro do comité central, tendo mantido as suas responsabilidades como membro do secretariado e da comissão política até ao XIV congresso em 1992, altura em que foi eleito membro da comissão central de controlo. Exerceu responsabilidades no âmbito da comissão administrativa e financeira e da comissão de património central até ao fim da sua vida. Foi deputado eleito pelo distrito de Leiria entre 1976 e 1987. Modesto e discreto, Joaquim Gomes deixa-nos recordações de uma vida de dedicação e de exemplo da resistência ao fascismo, de luta pela liberdade, a democracia e o socialismo. Joaquim Gomes lega-nos um exemplo de coragem e abnegação revolucionária, reveladoras da vontade e firmeza inquebrantável na luta ao serviço da classe operária, do povo e da pátria. O secretariado do comité central endereça à camarada Maria da Piedade Gomes e restante família, as suas sentidas condolências".

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Um partido leninista

O centralismo democrático exigia a imposição das decisões da maioria, a impossibilidade de existirem facções e tendências internas, um severo centralismo organizativo e uma fortíssima e determinante disciplina revolucionária a todos os níveis. Uma máquina gerida pela superioridade moral dos comunistas. Álvaro Cunhal exigia um PCP leninista onde os organismos inferiores cumprissem as decisões dos organismos superiores e onde a minoria se submetesse à maioria. Um partido onde todos os membros tivesse direito a discutir democraticamente toda a orientação do partido. Um partido onda a crítica e a autocrítica constituíssem uma base fundamental do seu trabalho. O PCP de Álvaro Cunhal assumiu-se como um partido dirigido por elites de revolucionários profissionais, organizados para dirigir as massas e instituir um Estado socialista através da revolução.