sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Encontros secretos

Santiago Carrillo fotografado na sua casa em Madrid



Santiago Carrillo e Álvaro Cunhal encontraram-se secretamente numa casa clandestina na serra de Sintra após a Segunda Guerra Mundial. “Cunhal era um homem impressionantemente magro. Vivia com imensas dificuldades e todos os camaradas comunistas portugueses tinham poucos recursos financeiros”, recorda o antigo líder dos comunistas espanhóis.. Os dois homens desfiam relatos das suas experiências pessoais e colectivas ao longo da madrugada. Fumam muito, conversam longamente, ceiam. Discutem os sucessos e os insucessos dos comunistas portugueses e espanhóis, falam da União Soviética e trocam promessas de solidariedade no combate aos ditadores ibéricos.


A conversa que corta o silêncio de Sintra em palavras quase sussurradas é entabulada cada vez com mais cigarros. Cunhal e Carrillo fumam bastante e o momento de descompressão e de segurança conforta-os. A serra parece estar adormecida, mas o cenário muda num instante. Por volta das quatro da madrugada, alguém bate à porta da casa clandestina e Cunhal julga tratar -se de um ataque da PIDE. “A polícia!”. Levanta-se e corre de imediato para uma janela, que começa a abrir no intuito de saltar e fugir para a escuridão da serra. “Ele abriu a janela disposto a saltar lá para fora!”, conta Carrillo. O comunista espanhol também salta da cadeira com Ramón Ormazábal, mas são menos lestos. Temem seriamente que a aventura portuguesa esteja prestes a terminar em catástrofe e antecipam mentalmente os fuzilamentos franquistas. Falso alarme. Trata -se somente de um funcionário do PCP que apareceu para chamar Cunhal e levá -lo para um encontro urgente. Cunhal desiste de saltar da janela e regressa para a sala. "Foi um bom susto", reconhece Carrillo.


As paixões de Álvaro Cunhal

O Álvaro era um homem que despertava paixões. Era muito bonito”, recorda Sofia Ferreira, que partilhou na sua juventude a casa clandestina de Álvaro Cunhal no Luso.




O Álvaro foi um homem como outro qualquer na sua vida sexual. Apesar de querer passar pelo homem que não se interessava por essas coisas e que não prevaricava, prevaricou. Prevaricou como as outras pessoas, homens e mulheres, prevaricam”, acrescenta Cândida Ventura, amiga de Álvaro Cunhal desde os tempos universitários.

Ana Cunhal em Moscovo com o pai



Ana Cunhal com o pai na cerimónia de inauguração dos Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980. O estádio (2009) onde esteve Álvaro Cunhal e as principais figuras do movimento comunista internacional.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O poder do povo


Álvaro Cunhal exaltou a determinação dos comunistas em fazer vingar as reivindicações dos operários em aliança com as massas populares e com os militares através da execução de “profundas reformas democráticas”. Estabeleceu cinco objectivos imediatos. Consolidar e tornar irreversíveis os resultados garantidos pelo MFA. Alcançar todas as liberdades democráticas, incluindo a da acção legal dos partidos políticos e assegurar a sua livre actividade. Pôr fim imediato à guerra colonial. Alcançar a satisfação das reivindicações mais prementes das massas trabalhadoras. Assegurar a realização de eleições verdadeiramente livres para a Assembleia Constituinte.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A memória de Lenine


O líder dos revolucionários portugueses repetiu a mise-en-scène de Lenine quando chegou a Petrogado do seu exílio na Suíça. Também Álvaro Cunhal  subiu para um carro de combate que o esperava na Portela para saudar as massas. Um tributo cénico digno de Eisenstein.


O entusiasmo e a exuberância da recepção superaram as suas expectativas. Os gritos de vitória correram mundo pelas televisões e traduziram em imagens um certo ascendente dos comunistas que seria depois capitalizado na determinação do processo revolucionário.

A chegada a Lisboa

Álvaro Cunhal aterrou no aeroporto da Portela no dia 30 de Abril de 1974 acompanhado por Domingos Abrantes e a companheira Conceição Martins (na foto). Os dois funcionários tinham chegado poucos meses antes a Paris quando ocorreu o 25 de Abril. Regressaram os três a Portugal no mesmo voo da TAP. Durante a curta viagem, o líder do PCP sujou as calças com a refeição servida a bordo do avião. A companheira de Domingos Abrantes tentou ajudá-lo para compor a imagem para quando chegasse a Lisboa, mas Cunhal insistiu em resolver o problema sozinho.

domingo, 28 de novembro de 2010

A revolução portuguesa


O processo revolucionário português permitiu nacionalizar a banca, companhias de seguros e vários sectores básicos da economia nacional. Energia eléctrica, petróleos, siderurgia, construção naval, cimento, vidro, tabaco, cervejas, transportes ferroviários, marítimos, aéreos e terrestres. Centenas de empresas foram tomadas pelo poder operário e a reforma agrária permitiu criar mais de 500 unidades colectivas de produção e cooperativas. O Estado Novo foi desmantelado, a Constituição assumiu a protecção das conquistas revolucionárias e definiu como desígnio nacional a construção do socialismo. Todas estas condições foram insuficientes para a concretização do sonho. Porquê?


Porque as conquistas revolucionárias não decorreram de um poder político revolucionário. Porque o PCP não conseguiu controlar os sectores militares essenciais e foi perdendo terreno para a extrema-esquerda. Porque os restantes partidos parlamentares eram favoráveis à fundação de um regime democrático do tipo ocidental. Porque a maioria dos votos foram expressando sucessivamente o apoio às propostas de governo do PS e do PSD. Porque Mário Soares se opôs. O jovem “Fontes” que aderiu ao PCP na juventude e lutou pelo comunismo transmutou -se no líder do maior partido concorrente do PCP com uma outra ideologia e uma outra prática.



Só Álvaro Cunhal manteve as suas convicções de sempre. O processo revolucionário esgotou-se no I Governo Constitucional e abriu portas para o processo contra-revolucionário. O PCP imputou o fracasso ao PS e identificou o “pecado original” nas eleições legislativas de 1976.

O parque moscovita onde Álvaro Cunhal passeava

Os arredores da casa de Álvaro Cunhal em Moscovo (2009)

Álvaro Cunhal viveu com a companheira Isaura Moreira e a filha de ambos, Ana Cunhal, em Moscovo, na primeira metade da década de 60. Este é um dos sítios onde a família costumava passear em conjunto.

Álvaro Cunhal visita Moscovo pela primeira vez


Álvaro Cunhal visitou a União Soviética pela primeira em 1935. “Ele chegou encantado de Moscovo. Não tinha razão para desconfiar da nada do que se passava. Nessa primeira vez, entre os altos dirigentes, só conheceu Suslov e só conseguiu ver a União Soviética que mostravam para propaganda, as visitas guiadas ao mausoléu onde estava o corpo de Lenine e alguns eventos sociais”, recorda Cândida Ventura, amiga desde a juventude.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A moral comunista


A prática revolucionária é a melhor escola de comportamento e de carácter pelas experiências que permite em termos de unidade, camaradagem, solidariedade e abnegação. É também uma escola por permitir aprender não só com os sucessos, mas também com os insucessos, mantendo inabalável confiança no futuro, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, mesmo em horas amargas de derrota” (Álvaro Cunhal)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

As fotografias de Álvaro Cunhal


Durante o exílio na União Soviética, Álvaro Cunhal tirava frequentemente fotografias à companheira, Isaura Moreira, e à filha, Ana Cunhal, que depois ele próprio revelava num pequeno laboratório instalado no seu apartamento. Nesta sequência, está uma dessas fotografias tiradas pelo antigo líder do PCP à filha e à companheira no parque perto da sua casa, durante um Inverno moscovita na primeira metade da década de 60, e o mesmo parque fotografado em 2009.

O outro lado de Álvaro Cunhal na SIC Notícias

O outro lado de Álvaro Cunhal na TVI 24

A vida no país dos sovietes

Isaura Moreira durante o exílio de Moscovo a comprar melancias à porta de casa

Álvaro Cunhal exilou-se na União Soviética após a monumental fuga do Forte de Peniche, em Janeiro de 1960. A companheira Isaura Moreira foi para Moscovo com a filha logo após o seu nascimento, numa clínica de Lisboa. Ana Cunhal nasceu na clandestinidade e acompanhou depois os pais no exílio. Primeiro, na União Soviética. Depois, em Bucareste. A vida quotidiana da família de Álvaro Cunhal em Moscovo ficou marcada pela normalidade: o líder comunista conseguiu, finalmente, usufruir de um núcleo familiar após longas décadas de vida ilegal, marcadas pelas prisões e pelas torturas, pela solidão e pelo exaustivo trabalho político.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Lançamento (IV)


Carlos Carvalhas (foto em cima), Pedro Passos Coelho, Miguel Relvas, António Vitorino e Adelino Cunha


Lançamento (III) O depoimento de Eugénia Cunhal



Pedimos desculpa aos leitores pela má qualidade do som.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Lançamento (II)

Pedro Passos Coelho, líder do PSD, e Miguel Relvas, secretário-geral, estiveram também presentes no lançamento

Lançamento com António Vitorino e Carlos Carvalhas


António Vitorino apresentou a obra de Adelino Cunha.  Carlos Carvalhas, sucessor de Álvaro Cunhal na liderança do PCP, esteve presente no Centro de Estudos Judiciários, antiga prisão do Limoeiro (dia 22 de Novembro).