terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A moral do revolucionário na prisão


A prisão de um comunista representava uma oportunidade para mostrar a sua têmpera revolucionária. As três detenções de Álvaro Cunhal durante a sua longa vida de clandestinidade permitiram-lhe identificar um conjunto de regras consideradas essenciais para que os revolucionários pudessem ultrapassar os interrogatórios, as torturas e as detenções arbitrárias e intemporais.  Se Fores Preso, Camarada” começa desde logo com uma dura advertência. “Se fores preso, camarada, cairá sobre ti uma grande responsabilidade. Terás de continuar defendendo o teu partido, os teus camaradas, o teu ideal, mas em condições muito diferentes, pois que te encontrarás isolado nas mãos do inimigo, sujeito aos seus insultos e às suas violências. Se fores preso, camarada, encontrar-te-ás em circunstâncias tão duras como nunca talvez tenhas atravessado”. Cunhal exige aos militantes que resistam e dêem provas perante o partido e perante os outros de que são “verdadeiros comunistas”. Comunistas capazes de se manterem “firmes” e “fiéis” aos ideais que defendem mesmo nas mais difíceis condições. Apela à resistência e reafirma a superioridade da lua comunista.




A leitura do folheto tornava a prisão uma coisa real e iminente. Passava a constituir mais um elemento do quotidiano. O que implicava viver uma angústia silenciosa esperando ouvir a porta ser derrubada a meio da madrugada pela polícia, dando início a um processo de sujeição física e psicológica. Joaquim Gomes, preso por três vezes, confessa o receio permanente em que os quadros viviam. “De facto, tinha medo. Muitas vezes me interrogava se teria forças para resistir aos brutais espancamentos e torturas da PIDE”.

Carlos Gomes e Joaquim Gomes estiveram presos no Forte de Peniche e foram ambos previamente torturados

As torturas na prisão do Aljube resultavam frequentemente em episódios de alucinações provocadas pela privação do sono e os agentes aproveitavam a fragilidade dos presos fingindo escrever num papel que depois guardavam no bolso para chamar a atenção do detido.

A prisão do Aljube, em Lisboa

Uma alegada confissão muito importante que acabara de ser feita sem que a vítima disso tivesse noção de que o fizera. A aparente menoridade das perguntas e das situações levava o prisioneiro para uma armadilha psicológica: trair o partido dando uma resposta que parecia inócua ou confirmando um qualquer dado já do conhecimento da polícia. A cena do “PIDE bom” e do “PIDE mau” degenerava invariavelmente em ataques de fúria de todos os agentes no caso de irredutibilidade dos presos.


O partido espera que os seus revolucionários aguentem estoicamente todas as privações e sevícias, conscientes de que estão a fazê-lo em nome de um bem maior. O sacrifício com a própria vida representa o limite do ideal revolucionário e Álvaro Cunhal irá dizê-lo depois do 25 de Abril numa homenagem a Catarina Eufémia. “Morreu como deve morrer um membro do Partido. Morreu à frente das massas, encabeçando a luta de classe, defendendo os interesses vitais dos trabalhadores”.

1 comentário:

Fonseca-Statter disse...

Quando vivia na Zâmbia (entre 1976 e 1981) tive ocasião de me encontrar com militantes exilados do ANC. Um deles - em Lusaka - disse-me um dia que eles (o ANC e/ou o SACP) tinham traduzido o «livrito» («booklet») de Alvaro Cunhal «If You Are Arrested Comrade»...
Já tentei obter confirmação de dados sobre essa tradução junto do ANC e do SACP - para um modesto contributo de homenagem à memória de Álvaro Cunhal - mas até agora (infelizmente) sem sucesso...
Para já, fica aqui o registo.